Cabra da peste, essa tal de saudade

mini gabi

Gabriela Guido

A gente nunca sabe explicar o que isso significa, mas deve. Porque saudade é tudo aquilo que a gente já sentiu um dia, e pensa que não sente mais, daí o pensamento nos apresenta alguns capítulos.

De repente vem no pensamento o dia que andei de bicicleta sem rodinhas pela primeira vez, aquela bicicleta roxa na rua do lado de casa, tá certo, eu bati no portão de uma casa e cai, como tudo na vida, a gente precisa de ajuda no começo, nos equilibramos no começo, mas sempre aparecem algumas barreiras que nos fazem ir ao chão. Isso acontece. Isso sempre acontece. Tem também aquele dia que ninguém queria brincar comigo na gangorra porque eu era mais gordinha do que as outras meninas, não sinto saudades desse dia, mas sinto daquela época. Esses dias me peguei pensando na primeira noite de insônia que eu tive por causa de coisas do coração, foi uma bobagem: eu conheci o guri naquele dia, achei lindo, e ele riu pra mim. Não sinto saudades do guri, porque não tenho do que sentir, foi apenas um sorriso, mas aquela sensação se repetiu algumas vezes, algumas mais fortes, outras foram engano.
Uma vez fui para Santa Cruz do Sul, no ENART, com meu pai, minha mãe, minha irmã e uma enorme amostra folclórica. Dei tchau para minha Barbie preferida e entrei no carro. Desde pequena sempre desconfiei que tivesse Toc – além de caminhar dentro dos quadrados dos azulejos da rua sem tocar nos cantos e ter que sempre tocar em uma coisa com as duas mãos – naquele dia (11/11/2004 se não me engano) eu conheci os tais caminhões Maersk, inventei de dar oi para um (sim, oi para um caminhão), até hoje quando um passa por mim eu conto minha história de vida… Aquela foi a nossa ultima viagem a média distância juntos, ninguém sabe porque eu gosto tanto daquela música “eu sou apenas um rapaz latino-americano e sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindos do interior…”, dizem que o Belchior é chato pra c*#$@!, mas eu adoro ele, porque foi ele que cantou a trilha sonora daqueles quilômetros, daqueles quatro dias. Quando eu escuto Apenas um rapaz latino-americano e Medo de avião, eu lembro daquele dia, a saudade toca de leve no meu coração, e eu não fico recordando as noites mal dormidas, mas me vem na lembrança a curiosidade da minha irmã, querendo saber o que os jovens faziam naquelas barracas que se balançavam, as ruas bonitinhas e enfeitadinhas de Santa Cruz, o orgulho que a minha mãe sentiu de mim ao me ver representar toda uma região naquele ginásio da Oktoberfest que estava tirando gente pelo ladrão, e o meu pai me apresentando para todo mundo que ele conhecia: “Essa é a mimosa do gordo!”
Quando criança eu ouvia algumas coisas estranhas, que mais tarde, bem mais tarde, entendi que eram as famosas DR’s, e todos os dias meu pai acordava de manhã e fazia meu leite com Nescau, só que um dia eu cheguei do colégio pra almoçar e as malas dele estavam prontas. Ele foi embora, e nunca mais fez meu leite com Nescau. Não sinto falta das DR’s, nem daquele dia dois de agosto, mas sinto um vazio toda vez que lembro do leite com Nescau. Por isso, não me julguem quando eu publicar a música do chato do Belchior, é a saudade querendo me teletransportar para uma vida que, em parte, não é mais minha há muito tempo e que em suma, é tão minha que nenhuma outra música me levaria para lá de novo, se não fosse essa.
Vários poetas escreveram sobre a saudade – eu estou longe de ser um – mas sei que nem o Aurélio conseguiu descrever exatamente, e que a palavra se parece em quase todas as línguas, Rosa de Saron disse em uma música que “saudade não tem tradução”.
Tu te engana, meu caro amigo, se pensa que saudade é um sentimento ruim, pelo contrário, a saudade fortalece laços: tu sente saudade do beijo de uma pessoa, morre de vontade, a cada segundo que passa aumenta mais, e sem que tu perceba, o carinho que tu sente também aumenta. Tudo bem, não é bom que seja demais!
Quero pedir desculpas aos meus amigos, por não citá-los aqui, mas vocês sabem, sabem muito bem que eu sinto saudade de tudo que é nosso, de ir para a Dom Joaquim só para achacar os bicos, de fazer competição de quem come mais (sempre estive nas primeiras colocações, acreditem vocês – leigos – ou não); a propósito, vocês lembram de quando comi 16 cachorros-quentes das oito da noite às dez e meia e de madrugada mais cinco? Eu não sinto saudades do que me aconteceu depois!

Desculpem por repetitivamente falar a palavra saudade, peço ao bom e velho português a tal da licença poética, já que sou metida a escritora. Saudade que dói é aquela que quer que o tempo volte para poder mudar certas coisas – não deixar o menino atravessar a rua sozinho, pedir desculpas, dar o último adeus, evitar falar certas coisas – mas sabe que é impossível… E quando ela vem, a única coisa que nos resta, viventes, é pensar que com as outras pessoas, as que ainda não morreram, as que recém estão chegando, a gente pode segurar a mão para atravessar a rua, pode ter humildade e falar as coisas que não gostou, e pedir desculpas, com essas pessoas que ainda estão aqui, a gente pode e deve sempre deixá-las com palavras de afeto e com o coração sincero despedir-se com um abraço, porque na vida a única certeza que se tem, é a morte. Com essas pessoas que ainda temos, podemos nos lapidar e dizer o quanto elas são importantes, o quanto a opinião delas conta e muito para as nossas vidas, invés de largar o famoso “tô nem aí!”. Porque, por mais bonita que ela seja, ninguém paga a conta dela, e naquele momento que a gente lembra daquela pessoa que nunca mais vamos ver, porque já foi morar com Deus, a gente tenta lembrar da voz, e a voz desaparece, o cheiro desaparece, tudo desaparece! Naquele momento a gente só tem a saudade, cabra da peste, essa tal de saudade!